Viagem

Dedo de prosa, uma viagem por Tiradentes

“Está vendo aquela mesa ali? É onde acontece o dedo de prosa. As pessoas vêm, a gente serve uma comida e uma bebida e começa a conversa. Sem formalidade alguma, sem roteiro a seguir. As pessoas ficam à vontade e quando percebem estão todas proseando. É isso que a gente quer: um dedo de prosa entre os moradores da cidade para resgatar estórias e o convívio social que foi se perdendo”. A fala é do Rogério Almeida, gerente geral do Museu da Liturgia, em Tiradentes, cidade de Minas Gerais, a quem recebeu a mim e um grupo de jornalista para uma visita guiada. Mais do que a visita, ganhamos um dedinho de prosa boa. Cheio de estórias para contar de pessoas e moradores de uma cidade coberta de história.

Parece uma brincadeira, quase um trocadilho, mas Tiradentes, uma das cidades históricas mais visitadas do país, está repleta de estórias de moradores. E não há criança que não goste de escutar. Porque são estórias de pessoas e lugares que vão muito além das igrejas e das aulas de histórias da sala de aula. São pequenas estórias que se conta a grande história. Aquela que vira livro, vira aula na escola, vira marco. Viajar à Tiradentes vai muito além. Principalmente, para quem tem filhos. Como se diz por aí, a cidade é super kids friendly e oferece um circuito de programas muito além das igrejas. Tiradentes é para os aventureiros. Tem cachoeiras, trilhas, bikes e uma caminhada por fazendas onde está a casa do Menino Maluquinho e outra chamada Rota dos Sabores. A gente passa pelos produtores locais de goiabada, doce de leite e queijos. E de pedacin em pedacin, a gente vai provando um bucadin de tudo. Quem não gosta?

Cidade pequena, de 7mil habitantes, com as ruas todas de pedras, casinhas brancas com janelas e portas coloridas. Acolhedora e um povo pra lá de gentil e generoso. Daqueles que realmente abrem a porta de casa e te convidam a entrar para um dedo de prosa, comer um “paozin de quejo e toma um cafezin”. O gesto é tão verdadeiro que não tem como negar. Com uma certa timidez no olhar e no jeito de falar, o mineiro é, realmente, de uma simpatia sem igual. E foi nesse jeitinho mineiro que a cidade nos recebeu para uma visita guiada. Toda costurada por estórias. Da Gabriela, da Erica, do Dalton, da Fabiana, da Ana Carolina e do Eduardo.

A começar pela que a Fabiana Oliveira, gerente do Museu Sant’Ana, nos contou. Aberto em 2014 e instalado na antiga Cadeia Pública da cidade, o espaço é lindo e abriga uma coleção de relicários e imagens da Santa pra lá de sensível. Angela Gutierrez, proprietária do museu, é devota de Sant’Ana, mãe de Maria, e passou anos buscando imagens pelo Brasil. Foi numa dessas viagens que veio a linda estória que Fabiana nos contou. Angela tinha recebido um aviso de que moradores de uma fazenda estavam vendendo tudo porque iam deixar as terras. Ela viajou até o local. A casa já quase vazia tinha num quarto uma imagem de Ana. A dona da casa percebeu o olhar de Angela à imagem e contou-lhe que a santa acompanhava a família há anos e que tinha lhe dado muita proteção todos esses anos. Ofereceu-lhe para comprar. Ainda que os olhos quase lacrimejassem, precisava do dinheiro. Mas ela não aceitou. Deu-lhe um forte abraço e pediu que ficasse com a imagem. Ao sair da casa, pediu ao senhor que vendesse tudo na casa, menos Sant’Ana. É com essa mesma sensibilidade e grandeza, que cada uma das imagens da santa compõe do museu da cidade. O paralelo entre a figura da mãe e Maria também permeiam toda exposição. O simbólico do feminino é extremamente forte e presente em cada sala, cada corredor, cada prateleira. Um lugar que mexe com algo muito maior que a fé. Espaço pequeno e acolhedor que num silêncio profundo te coloca em contato com estórias de uma mulher, de uma mãe e também de uma santa. Um outro lado da figura cristã.

Logo a frente do museu, está a Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos. Diz a cultura local que ela foi erguida entre 1740 e 1770. Os livros que continham os registros foram queimados. Restaram as estórias locais que foram passando por anos e anos entre os moradores. E Vicente Silva, o guia que nos acompanhava, contou algo muito interessante. Eram os escravos negros que trabalhavam nas minhas de ouro e eram esses mesmos escravos que transportavam o ouro nos lombos dos cavalos a cidade. O caminho era longo e cansativo. Os cavalos ficavam cansados e suados. Era ali, no pátio da Igreja que eles davam banho nos animais. E foi no banho que eles perceberam que ficava ouro na pele deles e começaram a guardar. E para onde levaram? Dentro da Igreja. Como os brancos nunca entrariam ali, nunca iriam saber que os negros também tinham o mineral. Dai a surpresa de quando você entra. De uma riqueza lindíssima! Um altar de arte barroca digno das grandes igrejas cristãs. Detalhes rococó, um órgão belíssimo e pelas paredes, muita estória de quem viveu ali tempos de escravidão e achou na Igreja o espaço para guardar uma de suas únicas riquezas.

Mas essa é uma parte histórica da estória que eu tenho pra contar. Lembra que Tiradentes é cheia de aventura. E o bacana da viagem está justamente aqui. No equilíbrio entre a parte histórica, dentro de museus e igrejas, e o outdoor, nas fazendas, lojas, restaurantes, estradas, montanhas e cachoeiras. Dos mais bacanas para criança são três: passeio de bike pela Rota dos Sabores, caminhada pela estrada do Menino Maluquinho combinada a almoço no Pau de Angu e uma refrescada na cachoeira Paulo André, e por fim, um cafezin da tarde na Casa Torta, no Bichinho, município vizinho.

Aluguem bicicletas com o Dalton Cipriani, da Uai Trip, e pegue a estrada Caixa D´Agua que sai da estação e siga o caminho da Rota dos Sabores. Você pode optar por fazer 3 ou 8km, mas é toda plana e a ideia é ir parando. O caminho beira o trilho de trem que ligava Tiradentes a Prados. E pelo caminho, mais estórias. De quem mora por ali e fez da rota uma fonte de vida e trabalho. Cada um tem algo a oferecer. A ideia é propiciar experiências. Daquelas que a gente parece não mais viver nas cidades grandes.

Entroncamos o Antero Dias, um fazedor de goiabadas e doces de leite, do Sabor Rural. Timidamente, ele foi nos dizendo o que fazia e como fazia. “Minha goiabada é muito leve. Coloco só 7% de açúcar na panela. O segredo está em não parar de mexer”, conta. “São 6/7h de panela. Doce de leite também. Por isso, o nosso tem um sabor diferente”. Como quem revela um segredo, mas num orgulho danado de saber que faz uma iguaria mineira como ninguém. E ele resolve tirar de trás do balcão a famosa goiabada. Um tacho que nunca vi igual! Maior do que bolo de casamento. Macia, saborosa e fresca. Que surpresa mais agradável tivemos ao parar para tomar uma simples limonada.

Outra sugestão é parte do roteiro que envolve Bichinho, município ao lado de Tiradentes. No caminho, com vista para a Serra de São José, um casario de fazenda, de chão vermelho e com uma bela de uma varanda abriga um dos restaurantes mais gostosos e fartos de Tiradentes. É o Pau de Angu, da Leonide Bezerra, moradora da região há bons anos. Super premiada e com inúmeras reportagens em revista, é ela quem recebe as pessoas, dá sugestões de pratos e passa pelas mesas para ver se estão gostando. O braço direito é sua filha. E o que não falta por lá é uma boa prosa e um clima rural raiz. Sugestão do que pedir? De entrada, a linguiça caseira da casa. Como prato, vale o frango com quiabo ou o lombo à figueiredo. E a sobremesa fica numa mesa perto da cozinha para você se servir à vontade. Pensa no que dá: doce mineiro à vontade.

Como não tem rede no restaurante da dona Leonide, o jeito é continuar caminho. Dali mesmo sai a trilha que leva a casa onde foi filmada o Menino Maluquinho. O caminho em si e até mesmo a casa não têm nada de muito interessante. Vale mesmo pelo passeio no meio da fazenda e das montanhas e pelos calçamentos de pedra feitos por escravos durante o séc. XVIII, que também podem ser vistos. Quem quiser pode alugar cavalos e fazer o passeio cavalgando. Como é quente, sugiro seguir até a pequena Cachoeira Paulo André para um refresco. Dá para nadar tranquilamente em uma das duas piscinas que formam ali. Fora desta rota, mas muito procurada também é a Cachoeira do Mangue. Deixe a dica anotada.

Para quem continua neste roteiro, siga sempre em frente que você vai chegar ao pequeno município de Bichinho. E lá, entre a cachaçaria Mazuma que vale uma visita guiada, tem a famosa Casa Torta. Só posso dizer uma coisa sobre esse lugar: é a-p-a-i-x-o-n-a-n-t-e! Parece cena de filme do Tim Burton. Juro. Os donos, Renato Maia e Lu Gatelli, são atores circenses e a ideia inicial era fazer local para os ensaios do grupo, mas a ideia virou de ponta cabeça e se transformou geral no que existe hoje. Um lugar para crianças e adultos brincarem que resgata brincadeiras tradicionais e estimula, principalmente adultos, a se soltarem e se permitirem a imaginar. Cada cantinho ali é um convite a fazer algo que a gente nem mais lembrava que existia. E ainda tem cafezin gostoso pro momento da prosa.

Comer bem e beber bem faz parte da viagem à Tiradentes. Além da Rota, a cidade é super gastronômica. Se come fartamente e saborosamente. Dicas? Estalagem do Sabor, na rua principal de Tiradentes; Pacco e Bacco pra um gostoso jantar (experimente o vinho da região); o orgânico e vegano Cultivo, o delicioso Raíz Mineira, o simples e surpreendente Empório Santo Antônio e o Tragaluz para jantar com toda polpa mineira. Todos, com exceção dos noturnos, super recomendo à crianças. Ah! E faltou a dica de ouro que é a queijaria Ouro Canastra. Vá preparado para provar a degustação dos diversos queijos mineiros e sair carregado deles.

Para se hospedar, vale a mesma regra. Tem hotéis deliciosos, reformados, com infraestrutura mais que boa e confortável. Ao melhor estilo mineiro. Dicas? O resort Santíssimo que tem toda infra para famílias, uma piscina deliciosa, quadras, cavalos, trilhas de bike e ele fica no centro de Tiradentes o que é ótimo para programas noturnos a pé. A Pousada Trem do Imperador é mais afastada, mas super divertida! São 6 reproduções de vagões de trens. A ideia, obviamente, é se sentir hospedada num trem e realmente parece. Lugar pequeno e acolhedor. Um pouco a frente, mais perto da entrada de Tiradentes, está o charmoso Pequena Tiradentes. Uma pequena reprodução da cidade, com móveis e decoração típica. O hotel também oferece uma série de programações especiais as crianças. Uma ótima opção para a família. E por fim, a Pousada Solar da Serra que fica no caminho que vai para Bichinho, cidadela vizinha. Construída em 2017, tem 15 quartos e uma vista deslumbrante da serra de Tiradentes. Delicia um fim de tarde ali na borda da piscina de borda infinita. Um escândalo! Ah! Não deixe de provar as balas de coco na recepção.

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