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Tem piolho na classe

Tem piolho na classe

Quer colocar fogo num grupo de mães da escola é só soltar um whats dizendo que tem criança com piolho na classe. Vira um alvoroço! Tem mãe querendo cortar a cabeça da outra que mandou a/o filha/filho na escola com piolho. Tem a que já marca médico porque fica apavorada. Tem que a manda a receita de vinagre no grupo e tem a que surta com a receita de vinagre. Tem também a que vai brigar com a coordenadora da escola, afinal de contas que escola é essa que permite crianças com piolho?!

A coisa pega fogo também quando os pais recebem o famoso “comunicado”. Algo como “Queridos pais, informamos que há casos de pediculose (piolho) na escola. Pedimos que verifiquem a cabecinha dos seus filhos e, caso positivo, favor seguir as recomendações de saúde. Pedidos a colaboração de todos para que mantenham a criança em casa durante o tratamento. Obrigada, a coordenação”.

Com pequenas variações, comunicados como este são enviados constantemente aos pais de crianças em escola. Piolhos também frequentam as salas de aula – e assiduamente. Mas ao contrário do que parece, ele não é um bicho de sete cabeças, mesmo que deixe os pais de cabelo em pé (desculpem, mas a brincadeira foi inevitável). Piolhos causam mais bagunça fora das cabeças do que nelas. E vou falar: engana-se quem pensa que piolho é coisa de quem não toma banho, tem falta de higiene ou é pobre. Piolho não tem classe social. Piolho é coisa da infância. Quem nunca?

Piolhos são fáceis e simples de serem tratados. Basta retirar dos fios e matá-los da forma correta e pronto. Nada de remédios e químicas. Eles caem na corrente sanguínea da criança e envenenam. Sim, isso não é coisa de gente natureba que é contra remédio. Faz parte de uma das recomendações que você encontra no site da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz). E o melhor método ainda é o do tempo da sua avó. A única diferença é que estamos em 2018 e o que muita gente fazia em casa hoje é delegado.

Existem salões de cabeleireiros especializados em caçar piolhos. Sim! Acredite que isso existe. No Brasil e no país do tio Sam. Você leva teu filho, ele senta na cadeira, recebe um ipad e enquanto se distrai na tela, por cerca de uma hora, a profissional faz o serviço (veja que “rico” também pega piolho). Há também quem contrate o serviço em casa e garanta ainda mais conforto a criança. Tempos modernos ou tempos líquidos, que nos escapam a qualquer demanda, ainda que elas sejam dos próprios filhos. Delegar é o verbo a ser conjugado e lá vamos nós procurarmos alguém que faça.

Há quem ensine seu filho a andar de ônibus sozinho. Há quem ensine a comer alimentos saudáveis. Há quem ensine a andar de bicicleta. Há quem ensine a brincar, a lidar com o tédio. Há quem ensine de tudo aos filhos nos dias de hoje. Mas é preciso ter família em mais momentos do dia a dia da criança. Seja pra por a cabeça no colo e caçar piolhos. E em vez de dar o ipad nessa hora, dê um pouco de atenção. Dê conversa. Dê troca. Ser cuidado por quem se ama tem um valor inigualável a qualquer serviço que se possa pagar. Talvez seja o momento de fazer escolhas do que vamos delegar e o que vamos pegar com as mãos e o coração. Porque mais do que talento para caçar piolhos, é preciso carinho para cuidar.

O texto original está publicado na coluna do Estadão

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