Comportamento

Quem acolhe, colhe

O título não é meu. É da Juliana Mariz, do grupo Co.Madre, que em sua newsletter semanal contou sobre a ida a fonoaudióloga com a filha. Ela fala de como a tocou perceber o problema de audição de uma menina de 3 anos. E da aproximação que fez com a mãe puxando assuntos cotidianos. Assuntos em comum que todos nós temos. Juliana termina seu texto dizendo que não sabe se a conversa fez alguma diferença na vida daquela mãe que ela teve vontade de abraçar e ajudar, mas fala de como foi bom poder dar escuta aquela mãe. Naquele momento, mesmo pequeno que fosse, ela foi acolhida. E quem acolhe, colhe.

Há duas semanas, o programa Profissão Repórter, trouxe o mesmo tema sobre outro viés. Falava sobre adolescentes que vivem em abrigos e que lidam com a dificuldade de adoção tardia e a chegada dos 18 anos – o que pode ser muito duro e desafiador se você não tiver ninguém que o acolha nesse processo. Vale fazer um resgate na memória e lembrar da sua chegada aos 18. Quantas coisas não significam. Tem o entrar na faculdade, tem o ser dono de si, tem o poder dirigir, tem o poder beber, tem o poder trabalhar, tem o poder ganhar seu dinheiro e decidir como gastar…tem o poder de tantas coisas que batem na vida como pura liberdade. Mas pra ter liberdade é preciso ter responsabilidade. E alguém precisa acolher esses jovens para que eles possam colher a liberdade que os 18 anos reservam.

Não é fácil. Tem historias bonitas, lindas, e outras nem tanto. Mas depende de nós nos dispormos a sentar e dar escuta a esses meninos e meninas. Depende de nós ajudarmos a construir essas historias de forma mais humana. Pensando que eles são tão parte das nossas próprias historias como somos da deles. Porque historias precisam de pessoas para construírem narrativas. E pessoas precisam de pessoas para continuarem suas historias. Cada um como parte de um trecho, mas o mundo é o mesmo e vamos todos nos encontrar qualquer hora dessas.

O Instituto Fazendo Historia tem dois de seus programas voltados a esses jovens. Um deles chama-se Grupo Nós que acompanha individualmente esses jovens no processo de transição entre acolhimento e vida adulta. Com inúmeros profissionais capacitados, eles ensinam os adolescentes, por exemplo, a como gastar o seu dinheiro. Ajudam a definir moradia para este jovem. Ajudam a buscar trabalho – e que trabalho é esse? Tem uma escolha a ser feita que precisa ser cuidada. Um trabalho que complementa o do acolhimento e que tem uma força gigantesca. Força de querer formar cidadãos pro mundo. De poder capacitar seres humanos.

Um outro programa do Instituto é o Apadrinhamento Afetivo que nada mais é do que o apadrinhar de uma criança ou adolescente. A ideia é basicamente a mesma do Grupo Nós, mas aqui em vez de profissionais capacitados temos pessoas capacitadas. Pessoas como nós. Pessoas que podem ser jornalistas, designer, chefs de cozinha, bailarina, atleta, dona(o) de casa… Pessoas que têm afilhados na vida familiar e que podem estender esse braço à alguém que eles ainda não têm tanta intimidade assim. Mas que assim serão capazes de ajudar a fortalecer a convivência familiar, e comunitária, desse adolescente.

O que se colhe de todo esse estender de coração é reparador. Ao adolescente e ao voluntário. Poder dar a chance a qualquer um de sentir carinho e cuidado na vida é de uma grandeza poderosa. Quem acolhe, colhe – verbo transitivo direto e pronominal. Oferecer refúgio, proteção ou cuidado. Porque em algum momento na vida, seremos todos acolhidos. Pelo tempo que passa. Ou pelo tempo que chega. Talvez pelo que chamam de velhice. Porque historias chegam ao fim. Um dia, precisam terminar. Umas mais felizes, outras menos, mas todas ao fim. Vai depender de nós a narrativa que vamos escolher. Acolher a própria historia para colher o seu final. Porque, mais uma vez, quem acolhe, colhe.

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