Comportamento

Até onde as marcas acham que vai a infância?

Uma amiga me ligou para contar que foi com a filha de 4 anos comprar uma nova Melissinha. O pé cresceu e o tamanho 25 já não serve mais nela. Se é uma menina grande ou não, não importa. Importa que a Melissa, uma marca que nasceu no segmento infantil, fazendo a famosa sandália Aranha, termina sua linha infantil exatamente no tamanho 25. “Do 26 em diante é outra prateleira”, diz a vendedora que acompanha minha amiga pra mostrar. Xi… mas não são mais sandálias de criança. Não tem mais modelos de moranguinhos, abacaxis e nem de laço. Nem laço!

 

A marca entende que do 26 em diante, ou seja, de 4 a 5 anos em diante, a criança não é mais criança. Não existe mais fantasia. Não se usa mais uma sandália de abacaxi no pé. Me explica como assim? Que critério é esse ou que referência é essa de infância? Até onde vai a infância pra uma marca como a Melissa? Que decide que, ainda pequena, ela não usa mais “coisas de criança”, provavelmente porque seu universo já não é mais tão lúdico. Recheado de fantasias. A menina já cresceu, pode ir pra seção de pré-adolescentes, ou sei lá como chamam. Partem desse pressuposto. Que crianças hoje se desenvolvem rápido, têm desejos e querem usar “coisas de maiores”. Será? Diria obviamente que não, e que marcas assim estão totalmente equivocadas. Se posicionar no segmento infantil supondo que a fantasia se limita a um período tão curto da infância chega a ser ignorância. Falta de conhecimento de público, como chamam no varejo. Básico.

 

E a Melissa não está sozinha nesse pensamento, infelizmente. A marca de moda praia Salinas investe na mesma linha “moda para maiores” na sua seção de peças infantis. Vai tentar comprar um maiô ou um biquíni mais largão pra uma menina de 10 anos. Você não acha! “Porque as meninas maiores já não querem mais”, me diz a vendedora. Oi?! Explica de novo. Nem todas as meninas de 10 anos querem biquínis de lacinho e pequenos. Alias, biquínis pequenos pra crianças não deveriam existir. Porque criança senta na areia, abre as pernas sem se preocupar se tem alguém olhando, pula no mar, pula na piscina, joga frescobol. Será que ela deveria se preocupar em brincar ou arrumar o lacinho na praia? Claro que vai ter a fase do lacinho, mas pra isso a menina precisar deixar de ser criança.

 

Temos aí um gap, e dos grandes. Entre o que marcas se propõem ao atender o segmento infantil e a compreensão delas sobre infância. Antecipar o fim da infância sob o argumento de que as crianças hoje em dia se desenvolvem muito rápido, e não querem mais isso e aquilo, é compactuar com uma visão de mundo equivocada. Que parte do ponto de vista de que os “avançadinhos são bacanas”. Não são, não! Não tem nada de descolado em usar coisas de adulto. Isso é a adultização que tanto se discute. Marcas apoiando (ou incentivando) crianças a fazer apropriação de códigos que ainda não foram conquistados. Códigos do guarda-roupa do adulto. E está cheio de menina que usa sandalinha de salto e muita gente acha bonitinho. Na inocência, vai liberando uma roupa aqui, um sapato ali, e quando essa mesma menina chegar à adolescência ela vai precisar viver tudo mais cedo também. Isso aí. Entendeu bem. Porque encurtar a infância é o mesmo que encurtar as outras fases da vida, e o padrão que ela está acostumada vai se repetir. Ou seja, vai ter necessidade de viver suas experiências com antecipação. Porque, desde pequena, recebeu estímulos precoces.

 

Quer ficar preocupado? Isso significa que a menina pode vir a ter relações sexuais mais cedo. Opa! Existem dados que demonstram isso. “Existe uma diminuição da idade de iniciação sexual nos últimos 50 anos”, confirma a ginecologista e obstetra dra. Diana Vanni, do Hospital Albert Einstein. “A Pesquisa Nacional de Demografia e Saúde, feita pelo Ministério da Saúde em 2006, por exemplo, revelou que 33% das mulheres entrevistadas haviam tido relações sexuais antes dos 15 anos, o triplo do índice apontado na edição anterior, de 1996”. Pah! Pode ficar assustado agora. Claro que isso tem diversos fatores e estão associados a diferentes mudanças de comportamento. Uma delas é a exposição enorme ao sexo na mídia, nas redes sociais, que, de uma certa forma, banaliza o ato. “Acabo percebendo que, para muitas adolescentes, o fato de o sexo ser tão presente em todos os aspectos da sociedade, de maneira sempre tão explícita, aliada a uma maior aceitação entre os pares, faz com que muitas embarquem na relação sexual sem muitos questionamentos.”

 

E de novo eu levanto a pergunta: até onde as marcas acham que vai a infância? Se considerarmos a expectativa de vida hoje, que chega à beira dos 90 anos, e considerarmos que a infância dura 11, estamos falando de 1/10, praticamente, de uma vida. Já é tão pouco! Precisamos encurtar isso em nome de quê? De mercado, de varejo, de vendas? Pensem bem. Porque tudo que começa mais cedo, termina mais cedo.

 

O texto originalmente está publicado no blog do Estadão online. Para ler, clique aqui.

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