Comportamento

Amamentação de prateleira

Ou é alimentação de prateleira? Pode ser ambos. Porque, desde quando nascem os bebês, o mercado ensina as mães que a melhor alimentação é aquela que não provém do peito e nem da horta. É a alimentação de prateleira que é rica em vitaminas, proteínas e tudo que seu leite não pode oferecer. Claro. Como assim o leite materno pode ser melhor que o leite da Nestlé? É Nestlé! Empresa suíça de tradição, no mercado desde 1866. Veja bem, são 149 anos fabricando um mundo alimentar que “faz bem”, como o slogan diz. E o leite materno? Está no mercado desde quando? É possível medir o grau de qualidade e satisfação do leite materno como produto? Não, a gente sabe que não. Como o mercado pede, não.

 

Veja bem. Bebês nascem e depois de duas, três semanas já estão na fórmula. A mãe já saiu da maternidade, já teve tempo de ir pra casa, tentar amamentar sozinha e, como toda pessoa normal, teve dificuldades. Quando volta ao consultório do pediatra para aquela primeira consulta desesperadora, o que acontece? Pah! Por uma razão que eu imagino ser comodidade, afinal a mãe não vai ficar ligando a cada mamada no consultório – convenhamos –, o pediatra logo receita o complemento. A mãe acalma, o bebê será alimentado e também não deixa de tomar o leite materno. Aparentemente, tudo sob controle. Tudo certo.

 

Daí a mãe faz aquela primeira visita à gôndola do supermercado em busca do leite receitado pelo seu pediatra. E estão todos lá: Ninho Fortificado, Ninho Prebio, Neslac Comfor, Premium, Supreme, e por aí vai. Repare na qualidade dos nomes. Todos indicam serem supervitaminados e cheios de coisas boas. Todos os nomes são fortes. Quem me chamou atenção pra isso foi o pediatra Daniel Becker, durante um TED incrível que ele fez falando sobre os 7 Pecados Capitais na infância. A mensagem é subliminar, mas acho que deu pra entender, não é? Agora experimenta olhar os rótulos. Grande parte deles tem açúcar. Uau!!! Açúcar para bebês. E os que têm farinha de trigo? Yes! Farinha de trigo pra dar aquela sustância. Porque bebê gordinho é sinônimo de saúde. Oi?!

 

Com o estoque de leite em casa, a mãe fica mais calma (e o pediatra também). E o bebê já cresce freguês da indústria dos enlatados. Depois não dá pra querer morrer quando a criança vê uma vaca e se espanta quando descobre que o leite sai de lá. Que leite? O leite que ela toma vem da gôndola do supermercado, vem da lata. Como assim? E não estou falando nada novo aqui, porque todo mundo sabe que existem zilhões de crianças brasileiras que não sabem de onde vem o leite. E não podemos culpá-las, porque elas aprendem com os pais que o leite vem da lata. E vão aprender que a mexerica já nasce descascada, limpa, sem fiapos e sem caroço. E vamos ensinando que o sofá é o melhor lugar do mundo, porque se mexer dá trabalho. Imagina descascar mexerica? Pra quê, se eu posso comprá-la supervitaminada e descascada. De caroço em caroço, vamos reforçando a cultura da preguiça, do industrializado e do quanto menos eu fizer mais eu ganho. A lei do mínimo esforço.

#semanamundialdaamamentacao

#semanamuldialdoaleitamentomaterno

 

O texto original foi publicado no blog Carolina Delboni, do jornal online Estadão. Para ler, clique aqui 

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